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Damien e Isabelle - conheça os vencedores do WCS 2007

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O World Cosplay Summit 2007 trouxe muitas surpresas entre os concorrentes. Foram vistas algumas apresentações tradicionais, outras mais elaboradas e algumas, ainda, diferenciadas. Foi nessa última categoria que a dupla da França formada por Damien Ratte e Isabelle Jeudy, demonstrou seu empenho e sua vontade de mostrar aos japoneses o quão antenados os europeus podem estar diante dos conceitos pop de uma cultura do Oriente.

Com uma apresentação bem pensada e que agradou muito os japoneses, a França comprovou que uma boa performance garante diversão não só aos cosplayers que estão no palco, mas para todos que assistem também.

O Cosplayers.net entrevistou com exclusividade e em primeira mão no Brasil a dupla ganhadora do WCS 2007, e perguntou a eles sobre a experiência de ser campeão do WCS.

wcs2007_damien_isabelle_013_resize.jpg1 – Vamos começar falando um pouco de vocês. Podem nos contar quem são Damien Ratte e Isabelle Jeudy? Qual a idade de vocês? Se vocês estudam ou trabalham, quais as suas ocupações e hobbies?

Damien: Tudo bem, vamos lá. Eu sou Damien Ratte (mas todos me chamam de DamDam), tenho 22 anos. Estudo numa escola de cinema na França há dois anos. Eu vivo em Rennes, no oeste da França. Chove muito por aqui e é frio. Então, eu posso ficar em casa jogando vídeo game. Eu sou louco por vídeo games, especialmente jogos dançantes (todos os Bemani, Pop’n’Music e Dance Dance Revolution, principalmente). Eu também gosto de cinema (os irmãos Marx e Monty Python são meus deuses), animação japonesa (Evangelion, Metropolis, Macross e muitos outros), mangá (Kimengumi, Angel Sanctuary, Dragon Ball, City Hunter e outros), hentai (Bible Black, Urotsukidoji, Servant Princess, Cross-Over e muitos outros), música (Ska, Dance, Power-Metal, Piano, Bemani Music, Techno Hard Core, Sharpnelsound, etc... e enquanto escrevo isso estou ouvindo Mago de Oz), e eu também gosto de sair, fazer coisas bobas com meus amigos, filmar vídeo clipes, curtas-metragens, e... Ah sim, eu também sou cosplayer!

Isabelle:  Olá, meu nome é Isabelle Jeudy. Tenho 21 anos e estudo Filosofia numa faculdade. Eu gosto de viver, escrever, criar roupas e cosplays, de fazer fotos e vídeos, desenhar, jogar vídeo games, descobrir coisas novas ao redor do mundo, de ler e de viajar. Tenho interesse em muitas coisas como, por exemplo, Economia, Cinema, Fotografia, Processamento de Dados, vídeo 3D, Moda, Literatura, línguas estrangeiras e gramáticas, música eletrônica, Caligrafia e Escultura. Eu escrevo obras de ficção, faço cosplays e atuo nos curtas do Damien.

 

wcs2007_damien_isabelle_014_resize.jpg2 – Há quanto tempo vocês fazem cosplay? Como começaram?

Damien: Eu faço cosplay só há dois anos (talvez um pouco mais). Eu comecei com a Isabelle quando nos conhecemos.

Isabelle:  Eu comecei a fazer cosplay há dois anos atrás, em setembro de 2005. Originalmente eu comecei para me aproximar do Damien (parece que funcionou...), mas também porque era algo que eu já queria há anos.
Eu me interessei por moda muito cedo, com 11 anos eu já costumava reproduzir sozinha roupas de filmes, vídeo games ou artistas que eu gostava, vesti-las e fotografá-las. Descobri a estética pop japonesa aos 13 anos, e ouvi falar dos encontros de cosplayers aos domingos em Harajuku. Foi assim que eu descobri o cosplay. Por muito tempo, eu pensei que só havia cosplay nos Estados Unidos e Japão. Mas quando comecei a estudar japonês (aos 15 anos), descobri que havia eventos e cosplay na França também. Então, eu decidi tentar um dia.
Mas foi só quatro anos depois que eu tive a oportunidade, em setembro de 2005, quando tinha 19 anos. Alguns cosplayers convidaram a mim e ao Damien para ir com eles a um evento. Eu fiz um cosplay da banda visual kei Lareine em três semanas (o que não foi fácil...). No fim eu ganhei o primeiro prêmio no concurso, andei por Paris pelo trem subterrâneo usando um vestido vermelho enorme, fui entrevistada pela TV francesa e até fui fotografada por alguns policiais. Eu percebi que só o cosplay podia me proporcionar essas situações incríveis e eu gostei dessa atmosfera. Então, decidi continuar.

 

3 – Vocês poderiam nos mostrar uma lista atualizada dos seus cosplays?

Damien: Eu fiz oito cosplays:wcs2007_damien_isabelle_003_resize.jpg

  • Testament e Bridget de Guilty Gear XX
  • Amitie de Puyo Pop Fever
  • Phyria de Slayers
  • Rothy de Magnacarta
  • Sakaki de Azumanga Daioh
  • Tsugiri de Alichino
  • Gundam K.R.O. de G33K0T4K episódio 1

Os três cosplays que eu mais gosto são Amitie, porque eu sempre faço coisas bobas com ele, Rothy porque é... sexy? Sim, acho que sim, e o Gundam K.R.O., porque é meu cosplay mais recente

Isabelle: Até o momento (outubro de 2007), eu já fiz 13 cosplays. Em ordem cronológica, são os seguintes:

  • Machi (Lareine/Versailles no Bara – visual kei)
  • Mana (Malice Mizer/Voyage sans retour – visual kei)
  • Kozi (Malice Mizer – visual kei)
  • Mrs. Accord (Puyo Pop Fever – vídeo game)
  • (Morning Musume/Renai Revolution 21 – jpop)
  • Amila (Magna Carta Crimsom Stigmata – video game)
  • Yukari Sensei (Azumanga Daioh – animê)
  • Murasaki (Pop’n’music – vídeo game)
  • Perfume (Tsukiji Neo – artwork japonês)
  • Stone Golem (Slayers – anime)
  • Margareta La Sirena (Pilgrim Jager – mangá)
  • Meryl (Megal Gear Solid – vídeo game)
  • Myoubi (Alichino – mangá)

Eu também fiz cinco cosplays para outras pessoas. Os que eu usei no WCS foram Machi, Murasaki e Miyoubi. O Damien também usou a Margareta. É muito difícil dizer quais eu prefiro, mas eu diria que meus preferidos são Machi, Amila, Murasaki, Perfume, Margareta e Myoubi, pois eu passei por muitas aventuras com eles.

 

4 – Vocês fazem/costuram os cosplays? Que tipo de cosplays vocês mais gostam? A escolha dos personagens é baseada mais no apelo visual ou na personalidade do personagem?

Damien: Claro que faço! A Isabelle me ajuda bastante, porque eu não sou tão bom quanto ela... mas de qualquer forma eu tento! Os cosplays que eu mais gosto são os engraçados, porque... eu não sou muito sério na vida real, então eu me sinto bem assim! Mas como nossas apresentações na França são sempre desconectadas do animê ou vídeo game de origem dos personagens, às vezes eu prefiro um visual bonito (como Rothy, que é o meu cosplay favorito), porque eu sei que posso fazer uma apresentação que é justamente o oposto do personagem.

Isabelle: Claro que eu faço e costuro tudo! Eu inclusive faço cosplays para outras pessoas. E justamente porque eu sou muito exigente sobre o que e como eu quero fazer, seria difícil deixar outra pessoa fazer o trabalho no meu lugar. Já aconteceu duas vezes de eu deixar uma amiga me ajudar com trabalho de costura bem simples, mas isso foi porque eu estava numa correria terrível antes do evento, com vários cosplays de outras pessoas para entregar. Mas para os meus próprios cosplays eu sempre faço tudo sozinha.

Veja o vídeo exclusivo que Damien e Isabelle gravaram para o Cosplayers.net: 

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5 – Há muitos eventos relacionados com mangá/animê na França? Quantos acontecem a cada ano, aproximadamente?

Damien: Sim, há muitos eventos. Algo como um a cada duas semanas mais ou menos, acontecendo em algum lugar da França. Mas não são muito grandes, claro que o Japan Expo, onde são as eliminatórias, é o maior, mas há muitos outros.

Isabelle: Há realmente muitos eventos na França. Durante a primavera e o outono mais ou menos um por semana, às vezes até dois ou três ao mesmo tempo e na mesma cidade. No verão e no inverno são menos, e o maior deles é o Japan Expo, onde nos classificamos para o WCS.

 

wcs2007_damien_isabelle_016_resize.jpg6 – Vocês são do tipo de fã que vai a todos esses eventos ou não levam isso tão a sério?

Damien: Como são muitos eventos, eu não tenho ido muito, mas vou em alguns como “Game in Paris”, “Manga Expo” ou “Japan Expo”, onde participo com cosplay, curtas-metragens ou campeonatos de vídeo game... Sim, eu estou bem ansioso por eles.

Isabelle: Não vamos a todos, é claro! Há muitos eventos! Além disso, a maioria deles é em Paris, que fica a 300km de Rennes, onde nós moramos. Eu vou a mais ou menos 10 eventos por ano. Vou a Paris seis vezes por ano mais ou menos, e os outros são aqui mesmo na cidade ou nos arredores. Eu também fui ao London Expo (Inglaterra), no ano passado.

 

7 – Vocês podem nos contar como são esses eventos na França? Há muita competição ou as pessoas estão mais interessadas em se divertir com seus cosplays? Como é a relação entre os cosplayers? Há muita rivalidade?

Damien: Quando o cosplay começou na França há 11 anos atrás, todos faziam cosplay só pela diversão. Então, as competições começaram a aparecer, e agora eu acho que há três tipos de cosplayers na França: aqueles que simplesmente se divertem nos eventos, sem competir; aqueles que querem se divertir no palco, quero dizer, aqueles que querem só mostrar seus cosplays ou fazer uma grande apresentação, independente de ganhar ou não (eu sou esse tipo de cosplayer); e aqueles que levam a competição a sério, e tentam ganhar. Mas esses não são muitos. Então, como o cosplay existe há 11 anos há os cosplayers antigos e os cosplayers muito novos, e o clima entre eles não é sempre dos melhores. Há alguns problemas às vezes, mas não houve nenhuma revolta ou morte ainda, então eu acho que está tudo bem.

Isabelle: Os eventos acontecem nos fins de semana, aos sábados e domingos, e às vezes na sexta-feira também (no caso de grandes eventos). No início, na França havia cosplay, concursos de filmes amadores, karaokê e muitas outras atividades, e o público vinha para ver o trabalho de outros fãs.
À medida que o mangá e animação japonesa se tornaram muito populares na França, nos últimos 10 anos, o público que freqüenta os eventos mudou. Agora há muitas pessoas que conhecem apenas as séries mais famosas, como Naruto, Death Note ou Bleach, que eles vêem na TV. Essas pessoas vão aos eventos só para comprar mangás e DVDs, para jogar os novos vídeo games, e para ver os convidados famosos, como desenhistas de mangá e cantores. Então, mesmo que o cosplay ainda atraia o público para os eventos, os organizadores não ligam mais para isso, porque eles não ganham dinheiro com o show gratuito.
Então com essa falta de recursos, os cosplayers também mudaram. Hoje há muitos garotos que querem se parecer com o Naruto ou garotas que querem ser como a Nana, e apenas compram roupas pretas ou laranja. E os organizadores usam isso para dizer que “cosplay não é coisa séria”. Claro que ainda há cosplayers mais velhos, que desenvolvem cosplays impressionantes e realistas, e até alguns mais novos que levam a sério, mas não são a maioria. E o problema é que todos são misturados nos concursos. Alguém que tem feito armaduras por 15 anos é colocado junto com um garoto de 12 anos que acabou de comprar um pijama cor de laranja do Naruto. Não é nem um pouco estimulante ou mesmo interessante ver ou participar desse tipo de concurso. Mas ninguém quer fazer uma separação entre os semi-profissionais e os novatos, como é feito em outros países, porque na França “cosplay não é uma coisa séria”.

 

8 – Como vocês se vêem nesse cenário?

Damien: Como eu disse, exceto pelo WCS, eu gosto de me apresentar só para fazer coisas bobas no palco.

Isabelle: Eu definitivamente sou uma cosplayer séria. Mesmo concordando que você precisa se divertir com o cosplay, eu também acho que, se você sobe no palco você deve proporcionar à platéia um bom show.

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9 – Vocês poderiam nos contar a história de como se classificaram para o WCS? wcs2007_damien_isabelle_022_resize.jpg

Damien: Algumas semanas antes da pré-seletiva nós estávamos nos perguntando se iríamos participar ou não (seria o segundo ano para nós). Então quando nos decidimos tínhamos menos de um mês para criar os dois cosplays e preparar uma boa apresentação. Então nós (com muita dificuldade) conseguimos (sério, nós não tivemos vida durante esse tempo), e ficamos muito surpresos de ganhar. Havia muitos cosplays maravilhosos na eliminatória Francesa, mas nossa apresentação boba (baseada no “Cálice Sagrado” de Monty Python, também com “Caramelldansen”) arrancou risos do público, todos gostaram e então nós ganhamos. TODAS as outras duplas fizeram apresentações muito sérias.

Isabelle: Nós fomos selecionados no Japan Expo, no dia 8 de Julho, neste verão. Os organizadores nos disseram apenas três semanas antes o tipo de cosplay que deveríamos fazer, então nós começamos faltando só 20 dias para o evento. Eu e Damien estávamos trabalhando em um vídeo clip musical ao mesmo tempo, então decidimos fazer algo relacionado para a nossa apresentação. Nós tivemos que terminar o vídeo clip e os cosplays em três semanas. Foi muito pouco tempo, nós trabalhamos muito e terminamos as roupas às 4 da manhã no hotel, no dia do evento. Nós estávamos exaustos, mas conseguimos!
O Japan Expo não é um evento voltado para cosplay (não há mais muitos assim na França). A maior atração esse ano foi uma palestra com Yoshiki (do X-Japan) e a maioria das pessoas veio para vê-lo. Então o cosplay não era muito importante. A eliminatória estava programada originalmente para as 2h da tarde. Mas o grande problema foi que os organizadores chamaram muitos convidados (cantores, mangaka, grupos japoneses... porque isso traria gente para o evento), mas não havia tempo suficiente para todos eles, então às 3h30 nós ainda estávamos esperando nos bastidores. Então o Yoshiki ficou nervoso, porque sua palestra estava atrasada, e ele ameaçou mandar seus seguranças nos colocarem para fora... (talvez alguém tenha dito a ele que o atraso era por causa dos cosplayers, eu não sei). Então os organizadores nos mandaram voltar às 4h30, mas nessa hora havia outro grupo no palco, então nos mandaram voltar às 5h. Mesmo assim não pudemos nos apresentar, e foi assim até as 6h30. Nós esperamos nos bastidores até outro grupo se apresentar e então finalmente pudemos subir ao palco.  Eles então disseram rapidamente quem foi escolhido, e nos colocaram para fora, porque o evento terminava às 7h da noite. Nós passamos o dia todo esperando e imaginando se a eliminatória iria mesmo acontecer ou não, e se poderíamos subir no palco e fazer nossas apresentações. Nós estamos totalmente cansados e desmoralizados, e alguns cosplayers acabaram quebrando suas roupas nos bastidores, porque não havia espaço. Um deles chegou até a desmaiar, porque a espera foi muito cansativa.
Como vocês podem ver o cosplay na França não é levado muito em consideração. Todos os cosplayers estão muito zangados com os organizadores do Japan Expo porque está ficando pior a cada ano. Eles nos olham como se não fossemos nada, e estão interessados apenas em ganhar dinheiro. Eu espero que no ano que vem as eliminatórias aconteçam em outro evento.

 

10 – Nós ficamos sabendo que o organizador do evento onde vocês foram classificados não foi com vocês ao Japão. Isso é verdade? O que aconteceu?

Damien: ...Sim, é verdade. De fato ninguém foi conosco ao Japão... eu não posso dizer o porquê pois eu realmente não sei. Mas eu sei de uma coisa: o evento onde as eliminatórias aconteceram, o Japan Expo, é um evento muito grande, um tipo de fábrica gigante de dinheiro. Se não pagássemos os 30 euros (aproximadamente R$ 76,00) nós não poderíamos participar. Nós tivemos que esperar mais ou menos 6 horas nos bastidores pelas eliminatórias, e nos apresentamos às 6h45 do domingo (o evento fecha às 7h). Nós tivemos que sair rápido no final porque estava fechando... nós pagamos para ficar esperando, e não pudemos entrar no evento. Então... sem organizador... sem assistente, ninguém. Nós tivemos que organizar a viagem toda sozinhos.

Isabelle: Bem... nós não sabemos. Nós nem conhecemos o organizador. Há boatos a respeito dele, mas como não sabemos ao certo prefiro não dizer nada. O fato é que as eliminatórias na França correram muito mal. O Japan Expo não é um evento voltado para cosplay, mas sim para convidados famosos, como muitos na França. Então eu acho que o organizador não ligava para cosplay, e tinha outras coisas para fazer em vez de ir conosco.

 

11 – Vocês poderiam nos contar por que escolheram Alichino como tema para os seus cosplays, e por que resolveram fazer uma apresentação voltada para a comédia e paródia?

Damien:  Eu adorei o design das roupas, elas são maravilhosas. E claro que eu queria fazer uma apresentação com comédia! Porque apresentações cômicas é o espírito da vida! Nos últimos anos, nós só fizemos comédia e paródia em apresentações em grupo, da mesma forma que quando fomos selecionados na França (com uma apresentação cômica), então nós tínhamos que fazer no Japão o que sabíamos de melhor: uma apresentação baseada em humor, paródia, com elementos que nós fazíamos questão de colocar: referências de Dragon Ball, Pokemon, Otaku no Video, e... o "Otaku Note"! [referência ao caderno Death Note versão "otaku" que eles usaram em sua apresentação na final japonesa]

Isabelle: Basicamente nós queríamos fazer nossos cosplays baseados em “Pop’n’Music”,  mas no último segundo ficamos sabendo que deveríamos apresentar cosplays baseados em mangá ou animê para as eliminatórias! Restavam então apenas duas semanas e meia para o evento, era muito pouco tempo. Após alguma discussão nós decidimos pelas roupas da capa de Alichino, porque eram as que nós mais gostávamos, e achávamos que haveria tempo para terminá-las.
Para as eliminatórias, nós escolhemos uma apresentação cheia de humor, relacionada com um musical que nós filmamos pouco tempo antes do evento. Então nós dançamos, falamos, fizemos piadas, referências a filmes, animês e mangas, e o público francês adorou. Quando os representantes japoneses vieram falar conosco, eles nos pediram para fazer o mesmo tipo de apresentação em japonês.
Então nós mantivemos o mesmo ritmo, com diálogos, luta, dança, piadas e referências. Mas tentamos desenhar um cenário que pudesse tocar o público japonês, que fosse ao encontro da cultura japonesa e com referências otaku (como por exemplo, a história de Urashima Tarô ligada a Dragon Ball, a dança de Haruhi, o Otaku Note, animês que estão passando agora na TV Aichi). Nós queríamos mostrar aos fãs de animê japoneses que estávamos sintonizados com eles, e deixá-los felizes por assistir o nosso show.

12 – Vocês acreditavam que poderiam ganhar com aquela apresentação?

Damien: Na verdade, não. Na França, muita gente nos disse que devíamos fazer uma apresentação séria, mas não era o que queríamos. Se nós tínhamos conseguido uma chance de ir ao Japão com esse tipo de apresentação, então era isso o que queríamos fazer lá também.
Nós preparamos a apresentação na nossa única semana livre antes de ir ao Japão, e foi muito corrido! Então nós fizemos todas as nossas piadas no palco, o público deu risada durante toda a apresentação, e tinha até gente dançando junto na parte de Suzumiya [referência à dança do animê Suzumiya Haruhi no Yuutsu], então ao final da nossa apresentação eu estava satisfeito. O objetivo que eu tinha quando vim ao Japão havia sido alcançado. Eu passei ótimos momentos no palco, o público adorou o que fizemos: ok, o WCS estava terminado, completo, no tocante a mim.
O fato de nós ganharmos foi incrível, eu absolutamente não esperava isso! Mas eu verifiquei algo muito interessante: haviam 14 grupos, e a maioria fez uma apresentação muito séria. Mas fora do palco, e do ambiente cosplay, eles não eram nem um pouco parecidos com o que apresentaram no show. Era como se eles não fossem eles mesmos no palco durante as apresentações do WCS. Para nós, o que fizemos no palco tem uma ligação direta com o que nós somos na “vida real”, sabe? Eu não estava representando!
E se você pegar os três ganhadores: o 3º lugar foi para o México, com uma performance engraçada de Sailor Moon, o 2º foi para o Japão-Tóquio, com uma performance muito original que fez o público rir; e por fim a nossa apresentação que vocês já sabem como foi: os três primeiros lugares foram comédias.

Isabelle: Nós não sabíamos se os japoneses iriam gostar do nosso senso de humor. Nós estávamos preocupados se eles não achariam engraçado. Mas quando subimos no palco ficamos aliviados. Então nós pensamos que talvez pudéssemos ganhar. Mas realmente, a coisa mais importante era fazer o público gostar da apresentação, antes de tudo. É assim que eu vejo o cosplay. Uma vez no palco, nós estamos lá para o público, e para o espetáculo. Quando terminamos nossa apresentação, de volta aos bastidores, o Damien me disse: "Acabou! Nós conseguimos!" Então nós não nos importávamos em ganhar o primeiro prêmio, porque já havíamos “ganhado” o que queríamos: conseguir fazer com que as pessoas gostassem da nossa apresentação. E de qualquer forma, nós não sabíamos como as apresentações seriam julgadas pelos juízes, então era difícil criar expectativas.

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13 – Dá para ver que vocês dois têm um ótimo senso de humor. Vocês normalmente fazer só apresentações de comédia ou também fazem algo mais dramático também?

Damien:  Não, eu nunca fiz uma apresentação dramática. E eu posso dizer o porque. Na França (não sei como é em outros países), durante os concursos a maioria das apresentações é como foi o WCS neste ano.
Todo mundo faz apresentações sérias e dramáticas, porque elas são fáceis de fazer. Você pega uma espada, põe a música do Sephiroth ou algo assim, você levanta lentamente sua espada para o céu, ó Deus, isso é maravilhoooso! Mas já foi visto 172 vezes antes de você. A menos que seja feito excepcionalmente bem, e fora de tudo que já tenha sido visto (como a apresentação da dupla do Japão-Nagoya com aquela performance incrível com o Gundam ou a dupla da Coréia), o público vai achar chato.
E o desafio de fazer o público rir é mais interessante do que só querer que eles olhem e digam “Oooh, que carisma! Que cosplay bonito!”. Sabe, penso o mesmo dos filmes. É mais difícil fazer uma boa comédia do que um filme sério que fala sobre coisas dramáticas.

Isabelle: Nós quase sempre escolhemos comédia por dois motivos: primeiro, na França as pessoas não gostam muito de apresentações sérias ou dramáticas. Então se quiséssemos fazer uma, muito provavelmente o público iria ficar entediado logo no começo. E para nós, uma das coisas mais importantes quando subimos ao palco é agradar o público.
Também, como o cosplay não é levado muito a sério na França, nós não conseguimos bons equipamentos ou organização. Freqüentemente acontece dos organizadores perderem ou esquecerem nossas mídias (trilha sonora, vídeo, etc) ou trocá-las com as de algum outro cosplayer, e acabamos ficando sem som nenhum quando subimos no palco, ou então ocorrem outros erros. É muito arriscado fazer uma apresentação dramática, porque se alguma coisa não funcionar, está tudo perdido, e não há como você salvar nada.

 

14 – Contem como vocês se sentiram a respeito do WCS e sua viagem ao Japão. Como foi a experiência?

Damien: Foi... hmm, bem, eu não me lembro, estava muito cansado. Sabe, nossa eliminatória foi no começo de Julho, então nós gastamos uma semana inteira para preparar a apresentação que usamos no Japão, e mais duas semanas (15 horas por dia) para fazer as roupas. Quando chegamos ao Japão, nós estávamos tão cansados que nem percebemos que estávamos lá. Tivemos que fazer coisas o dia todo, sempre correndo de um lugar para o outro, e não tínhamos dormido mais de cinco horas por noite desde o mês anterior.
Quando eu vi que era a mesma coisa no Japão, eu cheguei a chorar. Além disso, como não tínhamos um técnico ou assistente, nem nenhum representante da França conosco, foi mais difícil para nós fazer o que queríamos. Felizmente um repórter francês (Cyril Lambin, o único francês que estava lá) nos ajudou da melhor forma possível.
A viagem ao Japão foi... boa? Bem, eu realmente não me lembro. Na semana seguinte ao evento nós ficamos em um hotel em Tóquio, para encontrar nossos amigos no Togeki, mas eu e Isabelle dormimos por dois dias antes de fazer qualquer coisa.

Isabelle: As três semanas anteriores às eliminatórias foram muito pesadas para nós, e o Japan Expo foi totalmente exaustivo e desmoralizante. Então nós tivemos somente mais três semanas para preparar toda a viagem e a apresentação. Nós estávamos sozinhos, não havia ninguém para nos ajudar. Queríamos fazer outros cosplays, mas tivemos muitos problemas técnicos então desistimos, e isso nos deixou muito deprimidos.
Quando chegamos ao Japão, estávamos tão cansados que nem percebíamos o que estava acontecendo. Nós nos esforçamos além dos limites para continuar sorrindo e dar o nosso melhor. Foi muito, muito difícil.
Eu estou nervosa com os organizadores do Japan Expo porque não teria sido tão difícil se tudo tivesse corrido bem na eliminatória. Nós não teríamos ficado tão cansados e desmoralizados. E se eles tivessem sido mais amigáveis com a equipe da TV Aichi, nós poderíamos ter alguém no Japão.
Entretanto, a experiência no WCS foi ótima, nós conhecemos pessoas com diferentes visões sobre o cosplay e com diferentes habilidades na confecção de cosplays. Conversamos com várias outras duplas, especialmente a de Nagoya (de Gundam), e descobrimos muitas coisas sobre o cosplay ao redor do mundo. Foi uma verdadeira recompensa poder encontrar tantos cosplayers de tão alto nível! A equipe da TV Aichi também foi muito amigável, foi prazeroso e interessante trabalhar com eles. E nós adoramos conhecer Nagoya.
Depois do WCS, ficamos uma segunda semana em Tóquio. Descansamos alguns dias no hotel e então fomos conhecer a cidade. Passamos muito tempo em Akihabara! Jogamos fliperama e compramos vídeo games antigos e mangás hentai! Também fomos a Shinjuku e Harajuku, e compramos roupas e acessórios. Nós definitivamente temos os mesmos gostos, Damien e eu. Também fomos no domingo a Harajuku, próximo do parque, mas não haviam muitos cosplayers por causa do tempo (mais de 40 graus), mas nós encontramos outros participantes do WCS.
Minha impressão geral e sentimentos sobre o WCS e a viagem são bons, mesmo tendo sido difícil. Eu aprendi muito e aproveitei minha descoberta do Japão.

 

15 – Vocês sabem que houve alguma polêmica envolvendo a sua vitória no WCS. Como o fato de vocês terem vencido foi aceito pelos outros cosplayers, tanto no seu país quanto entre os demais competidores? wcs2007_damien_isabelle_025_resize.jpg

Damien:  Ahá! Eu sabia que vocês iriam nos perguntar isso! Todos querem nos ver mortos, certo? Bom, grande coisa! Eu não ligo!
Pelas minhas respostas anteriores vocês devem entender um pouco mais da minha visão do WCS. Antes de mais nada, eu quero dizer algo que é mais importante que todo o resto: nós estamos falando do World Cosplay SUMMIT [Nota do tradutor: Encontro Mundial de Cosplay, quando traduzido literalmente para o português], e não do World Cosplay CHAMPIONSHIP [Nota do tradutor: Campeonato Mundial de Cosplay].
Sim, nós ganhamos, e daí? A prioridade número um do WCS é reunir cosplayers de todo o mundo, para unir uma paixão, para tentar falar sobre a influência da maravilhosa cultura japonesa no mundo. Vocês não acham incrível ver todos esses países, que estão aqui pela paixão?
A final do WCS em Nagoya no dia 5 de agosto existe apenas para mostrar algo ao público, é uma competição de audiência. O WCS não é como uma copa do mundo de futebol, e é uma pena que alguns países estivessem pensando assim.
Se o WCS no Japão dura uma semana inteira (ou mesmo duas), é porque ele é muito mais que uma simples final. Durante a final (que não é uma competição, na minha opinião), nós estamos ao vivo na TV japonesa. Então o que eles querem (o público e a TV Aichi)? Eles querem ver cosplayers que estejam motivados com o que estão fazendo, eles querem ver que estamos felizes por estar lá, eles querem que nós apresentemos ao público alguma coisa muito boa, talvez nunca vista antes.
A dupla Japão-Tóquio fez esse tipo de apresentação, nós também. Nós ganhamos (porque talvez nossos cosplays estivesse melhores que os deles), mas não é estranho que os três primeiros colocados tenham apresentado comédia? Durante as três apresentações, o público estava rindo, encantado, aplaudindo (e dançando conosco), então o público em casa, em frente às TVs, provavelmente estava assim também, então, isso é bom para a audiência.
Nós provavelmente ganhamos porque em cinco anos de WCS, nunca uma equipe fez esse tipo de apresentação maluca, que é uma apresentação normal para nós... Mas talvez por outras coisas também, nossos cosplays talvez não fossem os melhores, mas eram absolutamente como os originais. E a mulher que apresentava o show também falou a respeito do fato de termos tido apenas uma semana para preparar a apresentação.
Eu estava conversando com as duplas chinesa e coreana sobre tudo isso, e eles concordaram com tudo, mas nem todas as outras duplas tiveram a mesma opinião.
De qualquer forma, depois que ganhamos houve três tipos de reação: aqueles que estavam felizes por nós; aqueles que simplesmente não disseram nada, e aqueles que estavam tão bravos conosco que eu achei que queriam nos matar. Pfff, sério, eu não vou dizer os nomes porque eu estou cansado de tudo isso, é muito chato. Eu posso entender que todos trabalharam muito para essa final, mas os resultados estão aí. O júri esse ano preferiu isso, e é só. Não importa se você vence ou não, apenas estar lá já é incrível. Foi por isso que eu parabenizei todas as duplas no final. Após a final, um dos membros do júri nos disse que nossa apresentação foi uma das melhores que ele viu em 20 anos de cosplay no Japão.

Isabelle: O fato é que não sabíamos o que realmente tinha. Um dia depois da final quando vimos as pessoas nos evitando e ficando longe de nós, não entendemos, e não sabíamos como reagir. Ai então pessoas do Brasil começaram a dizer na internet que nós não tínhamos merecido a vitória, mas eles não diziam o porquê, então eu não entendia, e ninguém conseguia me explicar.
Na França, as únicas categorias que existem nos concursos de cosplay são “individual” e “grupo” (algumas vezes também “personagens do Japão” e “personagens de outros países”), mas nada a respeito da apresentação. Muitas vezes as pessoas apenas desfilam no palco. O fato de criar todo um cenário ou gravar uma trilha sonora é bem raro. Somente alguns grupos na história do cosplay na França fizeram isso. E nós somos parte deles. Nós “criamos” um novo estilo há dois anos atrás: cenário com ação e muito humor baseado não na história original, mas em toda a cultura de animação japonesa, com referências também a novelas de TV, vídeo games, cultura em geral, atualidades do mundo - sempre coisas que o público possa entender e se sentir próximo. Faz bastante sucesso e hoje há mais e mais cosplayers que tentam esse tipo de apresentação na França. Então como a equipe da TV Aichi nos pediu, quando fomos ao Japão nós escrevemos algo que pudesse tocar o público japonês. Nós não sabíamos que tipo de conselhos eles tinham dado às outras duplas, e para ser honesta nós nem podíamos imaginar que algo como categorias “livre” e “tradicional” existissem em outros países. Nós só ficamos sabendo disso quando o Cosplayers.net nos explicou. A história do cosplay é diferente em cada país que faz parte do WCS, então talvez seja difícil para a equipe vencedora agradar a todos.

 

16 – O que vocês acham que essa vitória mudou em suas vidas, tanto como seres humanos quanto como cosplayers?

Damien: Bem, quando voltamos à França, nada de especial aconteceu, ninguém liga para o WCS aqui. Nenhuma mídia, apenas alguns sites, alguns amigos e só. Mas a preparação para essa semana maluca de agosto foi um desafio de verdade, mudou minha visão do espírito de competição e me mostrou o quão longe eu sou capaz de ir pela minha paixão. De qualquer forma, a melhor experiência para mim foi conhecer algumas pessoas no Japão que mudaram minha visão da vida em diversos aspectos. É difícil explicar, desculpem, mas de qualquer forma foi uma das minhas melhores experiências de vida. Nossa vitória é apenas nossa satisfação pessoal, e isso é maravilhoso!

Isabelle: (Não respondeu a essa pergunta).

 

Veja a galeria de fotos completa.

 


Entrevista: Petra Leão
Colaboração: Dani Karasawa e Remy
Fotos: Reprodução - arquivo pessoal de Damien e Isabelle

Last Updated on Thursday, 01 November 2007 13:09